Luto parental

O que acontece com pais que perdem um filho

Uma revisão de 15 estudos sobre as manifestações emocionais, fisiológicas e comportamentais do luto parental, e sobre o que o cérebro faz enquanto essa adaptação acontece.

Site informativo construído a partir do relatório final de pesquisa Manifestações emocionais, fisiológicas e comportamentais no luto parental: uma revisão de literatura.
Luiza de Oliveira Vasconcelos e Virginia Brondani de Freitas. Orientação: Prof. Me. Leonardo Conceição Guimarães. Universidade Paulista, Goiânia, 2025.

15artigos analisados na revisão
397participantes somados nos estudos
371mães entre os participantes
26pais entre os participantes
2010 a 2024recorte temporal na base SciELO
Fundamentos

Antes de tudo, o luto é um processo

Os conceitos que sustentam a pesquisa. Cada tópico abre uma explicação mais detalhada, com a fonte usada no artigo.

Clique em qualquer título para expandir.

O luto é definido como um processo, e não como um estado. É essa natureza processual que dificulta enquadrá-lo como doença. Segundo Parkes, quem está enlutado atravessa momentos de entorpecimento, saudade, desorganização e recuperação, alternando entre eles até conseguir se readaptar e retomar as próprias atividades.

Os quatro momentos descritos por Parkes

  • Entorpecimento: a primeira reação, marcada por atordoamento e dificuldade de assimilar o ocorrido.
  • Saudade: a busca pela pessoa perdida e a dor aguda da ausência.
  • Desorganização: a perda das referências e dos projetos que estruturavam a vida.
  • Recuperação: a reorganização gradual, sem que a perda deixe de existir.

Duas observações que o artigo destaca: uma perda costuma vir acompanhada de outras perdas secundárias, e o luto não se restringe à morte.

Base: Parkes (1998a), citado no artigo.

A distinção está no tempo e na intensidade. No luto comum, a pessoa passa por um período de grande angústia, mas a frequência e a intensidade das dores tendem a diminuir com o tempo.

No luto complicado, os efeitos fisiológicos, emocionais e sobre a saúde física aparecem de forma mais acentuada e prolongada. Esse quadro pode se agravar em transtornos psiquiátricos específicos, como o transtorno de estresse pós-traumático, o luto crônico e o luto retardado.

O que observar na prática

  • Duração dos sintomas físicos e emocionais.
  • Grau de prejuízo nas atividades cotidianas.
  • Persistência de pensamentos recorrentes sobre a pessoa falecida.
  • Dificuldade sustentada de retomar a rotina.

Base: Parkes (1998b) e O'Connor (2023), citados no artigo. Veja também a seção Aprofundamentos, sobre o Transtorno do Luto Prolongado no DSM-5-TR e na CID-11.

Os vínculos de apego são laços que conectam emocionalmente as pessoas e as motivam a buscar proximidade e conforto. Eles se formam desde a infância, quando o bebê aprende que a presença de uma figura cuidadora traz proteção e segurança.

Quando ocorre uma perda, o cérebro precisa reorganizar sua percepção de proximidade. Esse órgão tem dificuldade de processar informações novas que não podem ser simplesmente ignoradas, como é o caso da ausência de alguém querido. Viver o período de perda exige descartar informações já consolidadas e se adaptar a uma vida diferente.

O cérebro continua a disparar sinapses quando espera que a pessoa esteja no ambiente. Esse rastro neural se mantém ativo até que o indivíduo aprenda que ela não voltará. Por isso o luto é descrito como um processo contínuo, em que a pessoa enlutada experimentará pontadas de luto para sempre.

Base: O'Connor (2023), citada no artigo.

O luto é frequentemente invalidado socialmente, e muitos profissionais de saúde não sabem lidar com essa demanda. A perda de um filho pode levar a sofrimento prolongado, com depressão, transtorno de estresse pós-traumático e isolamento social. A dor se intensifica pela sensação de que a ordem natural da vida foi rompida, o que dificulta a ressignificação da perda.

Um exemplo de mudança concreta

O artigo cita o caso relatado pela Folha Vitória (2024), em que um casal cujo filho nasceu com complicações e morreu após o parto mobilizou uma articulação que resultou na Lei nº 10.115/2024, do município de Vitória. A lei garante que parturientes em situação de óbito perinatal permaneçam em acomodações separadas das demais, assegura acompanhante durante a internação e prevê um momento de despedida apropriado com os familiares autorizados pelos pais.

Base: Folha Vitória (2024) e Vitória (2024), citados no artigo.

Neurociência

O cérebro enlutado

O artigo recorre à neuroanatomia funcional para explicar por que reações tão físicas acompanham uma perda. Selecione uma estrutura para ver o que ela faz e como isso aparece no luto.

Clique nas estruturas do esquema. Também funciona pelo teclado, com Tab e Enter.

cerebelo córtex cerebral amígdala hipotálamo hipocampo formação reticular sistema límbico

Esquema ilustrativo, sem escala nem precisão anatômica. Serve apenas para localizar as estruturas discutidas no artigo.

Nenhuma estrutura selecionada. Escolha uma no esquema ao lado para ver a explicação.

Achados

O que os pais relataram

A revisão organizou os achados em quatro grupos. Cada marcador abre a explicação e indica quais estudos registraram aquele achado.

Clique nos marcadores dentro de cada ficha.

Cuidado

Redes de apoio e cuidado profissional

Um dos achados mais consistentes da revisão: o entorno muda a forma como o luto é vivido.

A importância das redes de apoio apareceu em sete dos quinze estudos. Família, amigos e crenças religiosas foram descritos como fatores de proteção que influenciam positivamente o processo de vivência do luto.

A qualidade do relacionamento conjugal também interfere. Mulheres satisfeitas com a relação apresentaram melhores resultados para depressão, luto e ansiedade. Em contrapartida, um estudo de caso registrou distanciamento conjugal quando a mãe passou a culpar o marido, o que resultou em isolamento.

Os ritos de despedida foram apontados como práticas que ajudam na transição e na aceitação da perda.

Estudos: Consonni e Petean (2013); Lemos e Cunha (2015); Paris, Montigny e Pelloso (2016); Pereira et al. (2018); Santos et al. (2019); Maués e Nascimento (2023); Pinheiro et al. (2024). Relação conjugal: Silva e Nardi (2010); Paris, Montigny e Pelloso (2016); Demontigny et al. (2020).

Maués e Nascimento (2023) apontaram a invisibilidade social do luto masculino e a pouca participação de homens em grupos de apoio, o que torna necessária a criação de espaços voltados ao acolhimento deles.

Pinheiro et al. (2024) encontraram achado convergente: pais se sentem isolados no luto e frustrados por precisarem confortar a mãe quando gostariam de receber apoio. O mesmo estudo relatou aumento do consumo de álcool pelo pai, com a mãe tendo que lidar também com isso.

O artigo observa que o luto materno costuma ser mais evidenciado por causa do período gestacional, o que muitas vezes minimiza o vínculo do pai com o filho. Some-se a isso a pressão social que impede os homens de expressarem emoções abertamente.

Vale notar o desequilíbrio na própria amostra da revisão: 371 mães e 26 pais, o que reforça a escassez de pesquisas sobre a experiência paterna.

Estudos: Maués e Nascimento (2023); Pinheiro et al. (2024).

Cinco estudos descreveram insatisfação com o atendimento recebido da equipe hospitalar. Entre os problemas relatados estão a falta de cuidado ao comunicar a perda, a dificuldade de contato com o bebê falecido, o arrependimento pela ausência de registros e a orientação inadequada.

Um achado que vale destacar

Costa e Almeida (2021) encontraram relatos de que havia psicólogo à disposição no hospital, mas que ele atendia apenas quem o procurasse. Os pais preferiam que o profissional estivesse presente e sugeriram acompanhamento desde o início do processo. Também disseram que, com um filho hospitalizado por doença oncológica, só conseguem pensar nele, e que seria bom ter alguém para ouvi-los além do confessionário religioso.

O que o artigo aponta como caminho

  • Comunicação humanizada do diagnóstico e da evolução do quadro.
  • Escuta ativa, quantas vezes for preciso e livre de julgamentos.
  • Acolhimento oferecido de forma ativa, não apenas sob demanda.
  • Reconhecimento da dor, sem minimizá-la.
  • Formação de profissionais preparados para o tema.

Estudos: Pereira et al. (2018); Santos et al. (2019); Costa e Almeida (2021); Vescovi e Levandowski (2023); Pinheiro et al. (2024).

O luto é natural, mas pode evoluir para um quadro complicado, caracterizado por sofrimento emocional intenso, pensamentos recorrentes sobre a pessoa falecida e dificuldade de retomar a rotina. Nesses casos, o acompanhamento psicológico se torna essencial.

A psicoterapia oferece um espaço seguro para explorar emoções, compreender padrões de ruminação e evitação, e ressignificar a perda sem que isso signifique esquecer ou desrespeitar a memória de quem morreu.

Evidência dentro da própria revisão

Silva e Nardi (2010) aplicaram um protocolo padronizado de terapia cognitivo-comportamental em um estudo de caso. Houve melhora significativa em ansiedade, depressão, desesperança e estresse psíquico, além de redução dos pensamentos intrusivos e dos sintomas físicos relatados.

Base: O'Connor (2023) e Silva e Nardi (2010), citados no artigo.

Metodologia

Como a revisão foi feita

Revisão de literatura na base SciELO, com quatro etapas de triagem até chegar aos artigos analisados.

Clique em cada etapa para ver o critério aplicado.

Palavras-chave utilizadas: luto, luto complicado, luto parental, pais, dor, ansiedade, memória.

Corpus

Os 15 estudos analisados

Objetivo, metodologia e resultados de cada trabalho incluído na revisão, conforme a tabela de extração de dados do artigo.

Use os filtros por tipo de perda e clique em um título para abrir a ficha completa.

Além do artigo

Aprofundamentos

Conteúdo que não está no artigo original, acrescentado a partir de fontes verificadas para contextualizar temas que o próprio trabalho aponta como lacuna.

Acréscimo, fora do artigo original

Transtorno do Luto Prolongado nos manuais diagnósticos

O artigo trabalha com a noção de luto complicado a partir de Parkes. Vale registrar que, desde 2022, o DSM-5-TR incluiu na Seção II o Transtorno do Luto Prolongado, e a CID-11 o classifica na categoria 6B42, entre os transtornos especificamente associados ao estresse.

Os dois manuais divergem no critério de tempo. O DSM-5-TR exige que a morte tenha ocorrido há pelo menos 12 meses para adultos e há pelo menos 6 meses para crianças e adolescentes. A CID-11 exige que a resposta de luto persista por período atipicamente longo, com mínimo de 6 meses. Em ambos, o tempo é apenas parte da avaliação: são necessários sintomas específicos e prejuízo funcional clinicamente significativo, com intensidade que exceda as expectativas sociais, culturais ou religiosas do contexto da pessoa.

A inclusão gerou debate sobre medicalização do sofrimento, e esse debate é relevante justamente para o cuidado com pais enlutados.

Acréscimo, fora do artigo original

Modelo do Processo Dual

A conclusão do artigo descreve que a pessoa enlutada vive dois movimentos, ora voltada para a perda, ora voltada para a restauração da própria vida. Essa descrição corresponde ao Modelo do Processo Dual, proposto por Stroebe e Schut em 1999 na revista Death Studies.

O modelo identifica dois tipos de estressores, os orientados para a perda e os orientados para a restauração, e um processo dinâmico de oscilação entre eles. Enfrentar a dor e afastar-se dela temporariamente são partes igualmente necessárias do enfrentamento adaptativo. O modelo também sustenta a ideia de dosagem do luto, isto é, a necessidade de pausas no confronto com cada tipo de estressor.

Aplicação prática: em vez de cobrar do enlutado uma progressão linear por estágios, o profissional pode observar se a oscilação está acontecendo e onde ela travou.

Acréscimo, fora do artigo original

Neuroimagem do luto complicado

Uma das lacunas apontadas pelo artigo é a escassez de estudos que evidenciem o impacto do luto nas áreas cerebrais. Um trabalho clássico nessa direção é o de O'Connor et al. (2008), publicado na NeuroImage.

No estudo, 23 mulheres enlutadas, sendo 11 com luto complicado e 12 sem, passaram por ressonância magnética funcional durante a apresentação de estímulos relacionados à perda. Os dois grupos ativaram regiões associadas à dor. Apenas o grupo com luto complicado apresentou ativação do núcleo accumbens, região ligada à recompensa, e essa ativação se correlacionou positivamente com o anseio autorrelatado pela pessoa falecida.

A hipótese dos autores é que, no luto complicado, lembranças da pessoa que morreu continuam ativando circuitos de recompensa, o que pode dificultar a adaptação à perda no presente. É um estudo pequeno e com amostra apenas feminina, o que limita a generalização.

Se você está atravessando isso agora

Este site reúne informação científica, não substitui atendimento. Se a dor estiver difícil de suportar, procure um psicólogo, a unidade básica de saúde mais próxima ou um CAPS. No Brasil, o Centro de Valorização da Vida atende 24 horas por telefone, pelo número 188, e também por chat em cvv.org.br. O atendimento é gratuito.

Fontes

Referências

As referências do artigo original e as fontes usadas nos aprofundamentos.

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